A segurança no trabalho não depende apenas de procedimentos escritos, equipamentos de proteção individual ou avaliações de risco. Depende, sobretudo, das pessoas envolvidas nas atividades diárias das empresas e da capacidade que uma organização tem para falar sobre segurança antes de acontecer um acidente.
É neste contexto que o Diálogo de Segurança assume um papel importante: uma ferramenta simples, prática e de baixo custo, mas com um enorme potencial para reforçar a cultura de segurança dentro das empresas.
O que é um Diálogo de Segurança?
O Diálogo de Segurança é uma conversa breve e estruturada sobre um determinado tema relacionado com a Saúde e Segurança no Trabalho (SST).
Pode ser realizado antes do início de uma tarefa, durante uma reunião de equipa ou perante uma situação de risco identificada no local de trabalho.
O objetivo não é fazer uma formação longa nem transmitir informação de forma unilateral. É criar um momento em que os trabalhadores possam identificar riscos, partilhar experiências e discutir formas mais seguras de realizar o trabalho.
Alguns exemplos de temas para um Diálogo de Segurança são:
- Utilização correta dos equipamentos de proteção individual;
- Quedas ao mesmo nível;
- Movimentação manual de cargas;
- Utilização segura de máquinas e equipamentos;
- Utilização segura de produtos químicos;
- Trabalhos em altura;
- Ergonomia;
- Prevenção de incêndios;
- Primeiros socorros;
- Riscos psicossociais;
- Exposição ao ruído;
- Organização e limpeza dos locais de trabalho.
Por que é tão importante?
Muitas vezes, os trabalhadores conhecem os riscos do seu trabalho melhor do que qualquer outra pessoa. São eles que diariamente utilizam os equipamentos, executam os procedimentos e enfrentam situações que podem não estar totalmente refletidas numa avaliação de riscos.
O diálogo permite transformar esse conhecimento em informação útil para a prevenção.
Quando existe espaço para falar sobre segurança, torna-se mais fácil identificar:
- comportamentos inseguros;
- situações perigosas;
- falhas nos equipamentos;
- dificuldades na aplicação dos procedimentos;
- necessidades de formação;
- medidas preventivas que podem ser melhoradas.
Mais importante ainda, transmite aos trabalhadores uma mensagem clara: a segurança faz parte do trabalho e é responsabilidade de todos.
O que dizem as entidades de referência?
A importância da participação e do diálogo com os trabalhadores na Segurança e Saúde no Trabalho é reconhecida por entidades de referência a nível europeu e internacional.
A Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho (EU-OSHA) considera a participação dos trabalhadores um elemento essencial de uma gestão eficaz da SST. A participação deve permitir não apenas informar os trabalhadores, mas também ouvir as suas opiniões e considerar o seu conhecimento e experiência. A EU-OSHA destaca ainda que a gestão da SST tem maior probabilidade de ser eficaz quando promove a participação ativa dos trabalhadores e o diálogo entre trabalhadores e gestão.
Também a Organização Internacional do Trabalho (OIT) reconhece a consulta dos trabalhadores como um elemento importante dos sistemas de gestão da segurança e saúde no trabalho. A consulta pode contribuir para identificar perigos, verificar se as medidas preventivas são adequadas à realidade do trabalho e obter feedback sobre a eficácia das medidas implementadas. A OIT destaca igualmente a importância do diálogo para a construção de uma cultura positiva de segurança e saúde, através da colaboração entre empregadores, trabalhadores e respetivos representantes.
Em Portugal, a participação e consulta dos trabalhadores em matéria de Segurança e Saúde no Trabalho encontra também enquadramento legal, nomeadamente através da Lei n.º 102/2009, que estabelece o regime jurídico da promoção da segurança e saúde no trabalho.
Assim, embora estas entidades não definam necessariamente o “Diálogo de Segurança” como uma ferramenta específica com uma única metodologia, os seus princípios de participação, consulta, comunicação e diálogo podem ser concretizados através deste tipo de iniciativa no dia a dia das organizações.
A importância da participação dos trabalhadores
Uma cultura de segurança não se constrói apenas através de regras impostas pela direção. Constrói-se também através da participação dos trabalhadores na identificação dos perigos e na procura de soluções.
Um trabalhador que é ouvido tende a sentir maior responsabilidade pela segurança do seu próprio trabalho e dos colegas.
Por isso, o Diálogo de Segurança deve ser um espaço onde seja possível falar de problemas sem receio de represálias. O objetivo último deve ser prevenir e não encontrar culpados.
Um dos erros mais comuns é transformar o Diálogo de Segurança numa pequena formação em que uma pessoa fala e os restantes trabalhadores apenas ouvem. O verdadeiro valor do diálogo de segurança está na participação. Em vez de simplesmente explicar que existe risco de queda, por exemplo, pode perguntar-se:
“Que situações podem provocar uma queda nesta área?”
Ou:
“Já encontraram alguma situação em que um trabalhador pudesse ter escorregado ou tropeçado?”
Estas perguntas permitem identificar situações reais e, muitas vezes, identificar problemas que não tinham sido anteriormente comunicados.
Como realizar um bom Diálogo de Segurança?
Um Diálogo de Segurança eficaz pode durar apenas 10 a 15 minutos, desde que tenha um objetivo claro. Qualquer que seja a estrutura devem ser cumpridos 6 passos num diálogo de segurança eficaz:
Escolher um tema
O tema deve estar relacionado com os riscos existentes na empresa ou com situações recentemente identificadas.
Apresentar o risco
Explicar de forma simples qual é o perigo e quais podem ser as suas consequências.
Envolver os trabalhadores
Fazer perguntas e incentivar a partilha de experiências.
Identificar medidas preventivas
Discutir o que pode ser feito para eliminar ou reduzir o risco identificado.
Definir ações
Sempre que seja identificado um problema concreto, deve ser definido o que será feito, por quem e, quando necessário, até quando.
Registar
O diálogo pode ser registado através de uma ficha simples, permitindo demonstrar que a atividade foi realizada e acompanhar as ações identificadas.
A frequência é importante
Não existe vantagem em realizar um único Diálogo de Segurança por ano e considerar que a cultura de segurança está assegurada. A prevenção deve ser contínua e a frequência deve ser adaptada à realidade da organização, tendo em conta fatores como:
- dimensão da empresa;
- nível de risco;
- número de trabalhadores;
- tipo de atividades desenvolvidas;
- ocorrência de acidentes ou incidentes;
- alterações nos processos de trabalho.
Em atividades de maior risco, pode ser particularmente útil realizar diálogos com maior frequência.
O Diálogo de Segurança como ferramenta de melhoria contínua
O Diálogo de Segurança pode também funcionar como um mecanismo de feedback entre os trabalhadores, as chefias e os responsáveis de SST.
Uma situação identificada durante uma conversa pode ajudar a identificar riscos, comunicar e analisar esses ricos, implementar medidas preventivas e acompanhar essas medidas.
Desta forma, o diálogo deixa de ser apenas uma atividade de sensibilização e passa a integrar verdadeiramente o sistema de gestão da SST.
Conclusão
Uma empresa pode ter procedimentos, sinalização, equipamentos de proteção e documentação adequada. Mas se as pessoas não falarem sobre os riscos, existe o perigo de a prevenção ficar apenas no papel.
Uma cultura de segurança forte não se constrói apenas quando acontece um acidente. Constrói-se todos os dias, através de pequenas conversas, decisões e comportamentos seguros.
O Diálogo de Segurança é uma ferramenta simples, mas pode ter um impacto significativo na prevenção de acidentes e na melhoria da cultura de segurança das organizações. Mais do que transmitir regras, permite ouvir quem realiza o trabalho, identificar riscos reais e envolver toda a equipa na prevenção.
Na Saúde e Segurança no Trabalho, prevenir começa muitas vezes por uma pergunta simples: “O que podemos fazer hoje para tornar este trabalho mais seguro?”
É através deste tipo de diálogo que a segurança deixa de ser apenas uma obrigação e passa a fazer parte da cultura da organização.
Se precisa de ajuda para implementar o diálogo de segurança no dia-a-dia da sua empresa contacte-nos.
Fontes e referências
- EU-OSHA — Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho: liderança e participação dos trabalhadores.
- EU-OSHA — Occupational safety and health management systems and workers’ participation: participação dos trabalhadores nos sistemas de gestão da SST.
- OIT — Organização Internacional do Trabalho: consulta dos trabalhadores em matéria de Segurança e Saúde no Trabalho.
- OIT — Reforçar o diálogo social para uma cultura de segurança e saúde: importância do diálogo social na promoção de uma cultura preventiva.
- Lei n.º 102/2009, de 10 de setembro — Regime Jurídico da Promoção da Segurança e Saúde no Trabalho.
Leitura recomendada
EU-OSHA — Leadership and worker participation
EU-OSHA — Occupational safety and health management systems and workers’ participation
OIT — Reforçar o diálogo social para uma cultura de segurança e saúde







